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Antonio Carlos E Jocafi

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Antonio Carlos E Jocafi

Em 1967/68, ainda ecoavam os brados do festival da Record que consagrara Gil e Caetano, o primeiro pela complexa musicalidade de Domingo no Parque, o Segundo pela fantástica letra de Alegria, Alegria, um verdadeiro hino da contracultura que se insinuava no Brasil e achou nos baianos seus melhores intérpretes, acoplados com os Mutantes, Rita Lee, Rogério Duprat, Júlio Medaglia e outras figuras menores. Nesta época, o movimento paulista chama-se Som Universal e desejava abolir todas as fronteiras; acabar com todos os cercos do bom gosto bem comportado da classe media. Mais tarde tomaria o nome de Tropicalismo e instauraria na música popular brasileira o uso da guitarra e do baixo elétricos, pondo de lado os purismos que acusavam estes instrumentos de nos alienarem.

Pululavam os festivais, nacionais estaduais, municipais e colegiais. Uma verdadeira febre. E nesses festivais, aos trancos e barrancos, estouravam os talentos, alguns meteóricos, cuja fama durava, no máximo, seis meses após o festival, como compositor de uma música só ; alguns extrapolavam do festival do colégio para o festival da faculdade, até chegarem ao festival profissional e fazer carreira. Jocafi foi assim. Entre 1967/68/69, este menino remediado do Cosme de Farias abiscoitou prêmios em todo festival que participou, Festival do Jovem Compositor, Festival do Samba, Festival do Nordeste até ser guindado ao pódio nacional, no Festival da Excelsior, O Brasil Canta no Rio, em 1968 e no ultimo Festival da Record em 1969, este tendo banido os instrumentos elétricos, numa evidente manobra da repressão militar de afastar qualquer resquício de Tropicalismo no festival. Tomzé e os Novos Baianos fizeram uma apresentação pálida e nem se classificaram.

Não houve nem haverá melhor trampolim para o sucesso que os festivais, poderosas vitrines de talento alardeada para toda a nação com toda a massa de publicidade de que dispõe a TV; Jocafi que unir-se-ia a Antonio Carlos Marques Pinto, outro menino remediado fruto dos acertos e revezes dos festivais, Jocafi e Antonio Carlos já formando a famosa dupla foram os dois projetados pela máquina maior do sucesso que já houve no país, o FIC, Festival Internacional da Canção da Rede Globo. Primeiro Hipnose que foi finalista, depois Desacato que levantou o Maracanãzinho e mais uma vez a dupla foi injustiçada, Desacato foi a predileta do público e de muitos do júri. Mas armação é armação e todo festival não passava de armação, cada um tinha que esperar a sua vez quietinho. Se não lhes deu a vitória final, Desacato foi cantado pelo Brasil todo; Desacato foi gravado e alavancou a carreira da dupla que entrou no mercado vendendo discos, milhares de discos, de primeira.

No princípio, não era o verbo e sim a discórdia. Jocafi e Antonio Carlos eram rivais, competidores, desconfiavam um do outro, paravam a conversa quando o outro chegava. Antonio Carlos voltara a Bahia depois de ter granjeado um prestígio for a do comum, ele e Maria Creuza, em São Paulo, classificados no Festival da Record de 1968. A voz de Maria Creuza impressionou tanto a cúpula da Record que provocou uma reunião em que se planejou lançá-la para contrabalançar o sucesso de Elis Regina.

E enquanto Gil e Caetano se espraiavam na praia universal do pop, do concretismo, da vanguarda pirotécnica dos analfomegabetismos, Antonio Carlos mergulhava nas raízes baianas e, digerindo uma crônica de Vasconcelos Maia criava uma letra nova, uma linguagem nova, tangida por um estranhíssimo bordão que pontuava Festa no Terreiro de Alaketo. O ritual do candomblé, o vocabulário do candomblé, a lingual iorubá entrava de chofre na música popular brasileira, tendo tido antes uma incidência discreta em Caymmi e Humberto Porto, ambos baianos, e ocorrências esporádicas nesta mesma época, as quais não tiveram continuidade nem expressão.

Festa no Terreiro de Alaketo deslumbrou a galera paulista da Record que operava assim: chegando uma fita com música de qualidade, principalmente um porradão, a Record escolhia um intérprete do seu elenco (cast) para defender a música, já sabendo que este intérprete chegaria à final, seria lançado e faria sucesso. Tinha sido assim com todos os vencedores do Festival da Record e seus intérpretes contratados pela emissora. No caso da canção baiana, ela seria o trampolim de Maria Creuza. E tudo teria ocorrido na santa paz do sucesso se um empresário abilolado não tivesse estragado tudo. A bola dos dois baianos estava tão cheia que a Record alugou um apartamento para eles nada menos do que na Rua Augusta e o fiador do apartamento era o próprio Paulo Machado de Carvalho. Já estavam agendados na Odeon dois LPs (vinil) um de Antonio Carlos e outro de Maria Creuza. Tudo estava preparado para lançar os dois, para aninhá-los nos braços do sucesso. Contudo, esse empresário golpista ao saber da classificação de Festa no Terreiro de Alaketo e sua posição nas eliminatórias, meteu na cabeça de Antonio Carlos que estavam fazendo armação contra eles e que ele devia denunciar Marcos Lázaro, o mais poderoso de todos os poderosos empresários do Brasil. Antonio Carlos foi aos jornais e mandou bala em Marcos Lázaro. Resultado, Marcos Lázaro pediu a cabeça dele e foi-lhe dada numa bandeja. Festa no Terreiro de Alaketo foi desclassificada, perdendo, por ironia, para Beto bom de bola, de Sérgio Ricardo que deu no episódio do violão arremessado na platéia. E o tapete foi puxado. Paulo Machado de Carvalho saiu de fiador, a Odeon cortou os discos e os dois voltaram para a Bahia para disputar o Festival do Samba da JS gravações cumulados de promessa por Jorge Santos um fã incondicional de Maria Creuza. E quem ganhou o Festival do Samba foi Jocafi.

Antonio Carlos e Maria Creuza foram ficando na Bahia, aí vem o Festival da Excelsior , o Brasil Canta no Rio e a dupla emplacar Presente de Iemanjá e Menina do Tororó até a final que Sérgio Bittencourt ganhou, no Rio, com Modinha. Foi quando me aproximei de Antonio Carlos, meu competidor no Festival da excelsior, pela mão do cantor e compositor Luis Berimbau. Começamos a compor juntos. Fizemos um disco na JS Gravações, Apolo XI, com Maria Creuza. Fizemos vários “shows” com roteiros meus. Até que aparece o I Festival do Nordeste. Nós escrevemos duas músicas. OSSAIN, lançado em 1968, primeiro ijexá da música popular brasileira e EDITAL que era um ijexá em parte.

Nessa época, eu tinha um curso de inglês, IEC e dava aulas diariamente até 9 horas da noite. Numa sexta-feira, quando acabei a aula e saí, deparei com Jocafi, um compositor, rival, sorrindo pra minha cara. Ele queria que eu fizesse letra para um tema dele que ninguém conseguira letrar na Bahia, a fim de inscrever a canção no Festival do Nordeste. Eu lhe perguntei quando se encerravam as inscrições e ele disse, amanhã. Amanhã? Amanhã até meio-dia. E que hora eu iria faze a letra? Agora, ele disse. Fomos pra casa de Vieira, apelido de Antonio Carlos e eu fiz a letra. Tiramos a maior nota das eliminatórias. Na final um verdadeiro complô, liderado por Carlos Lacerda com quem Antonio Carlos tinha brigado. Derrubou a canção associado com uma posição estúpida de uma folclorista que foi ao júri da final e afirmou que era contra se usar folclore na música popular. Catendê, a música, usava um refrão de cântico religioso de Angola.

A traição estava armada. Josmar Assis, um violonista que tinha dado nota cinco na eliminatória deu três. Ora, ele tinha implorado a mim e a Antonio Carlos que musicássemos uma letra do patrão dele, prometendo fechar com a gente no juri. Nós musicamos a letra que se classificou para entusiasmo do patrão e Josmar, na final, traiu a gente calhorda. Catendê serviu para unir dois adversários Jocafi e Antonio Carlos tocaram violão na música e Maria Creuza a defendeu. Daí por diante, formamos um trio com Creuza formando o quarteto.

Devido a esse cenário, Chapeuzinho Vermelho de Alcyvando Luz e Jairo Simões tirou isolada, primeiro lugar. empatados em Segundo vinha Carlos Lacerda e Cid Seixas, com Menina da Laranja e Walter Queiroz Jr. com a Cigana Rendeira. Em terceiro lugar, Catendê, empatada com Moinho de Vento de Mário César. E agora o regulamento falava em quarto músicas. A TV Itapuã anunciou que todas as cinco iriam à final em Recife. Mas Recife não topou. E Recife mandava nos diários Associados do Nordeste. Resultado, fomos chamados pra desempatar. No sorteio, Moinho de Vento ganhou e lá no Recife tirou terceiro lugar. O público todo perguntava por Catendê. Mas a sorte desta música não a deixaria por aí.

Quando perdi o sorteio e sai do festival pedi ao diretor da TV que me desse um atestado de ineditismo de Catendê pois pretendia colocá-la em outro festival. Ele disse que sim, na hora em que eu precisasse. Feito um tolo, não pedi logo. E acontece que meu amigo Agostinho dos Santos veio a Bahia e me perguntou se eu tinha uma música para o Festival da Record. Eu disse que sim mas que as inscrições estavam encerradas. Ele sorriu e disse que era amigo do produtor, Marcos Antonio Rizzo e era só dar a fita. Chamei Antonio Carlos e com Maria Creuza gravamos as nossas duas melhores músicas. Depois, como ainda houve espaço na fita, sugeri gravarmos Catendê. Não deu outra. Eu estava em Los Angeles numa missão cultural quando recebo o telegrama de minha irmã. Ednalva. “Catendê classificada Festival Record apresenta-se este sábado”.

Corri para Varig e achei vôo no dia. Chegando um pouco antes do Festival. Fui direto do aeroporto para o Teatro Record, surpreendendo os meninos. Catendê foi defendida por um grupo de adolescentes, hoje desaparecido Os Caçulas e foi classificada com a nota mais alta desta eliminatória. A letra mereceu uma referência de Maysa: é um verdadeiro poema. Quando todos esperavam que Catendê ganhasse o festival, ela foi denunciada em seu ineditismo por um delator de Recife, Antonio Carlos Cabral de Melo e foi desclassificada, com total prejuízo de nossos sonhos. Um saldo positivo ficou. A dupla Antonio Carlos e Jocafi que nasceu do trio eu e eles dois, já compondo juntos naquela época. Isso foi final de 1969. Final de fevereiro de 1970 tive que fugir do país porque era da luta armada e tinham prendido Amilcar Baiardi meu chefe, este podia falar, o que alias não fez. Mas tive que ir embora. Na minha ausência, a dupla se consolidou, como era e destino natural, os dois músicos, os dois cantores, os dois letristas.

As letras da dupla assinalam uma inovação e um salto de linguagem, consagrando baianismo a nível nacional, introduzindo um sotaque regionalista nas letras dominantemente vazadas no dialeto carioca, no léxico, no jeito, na pronúncia. Há palavras hoje do domínio nacional que são baianismos que eles introduziram e consagraram nas canções. Uma delas é BREGA que aparece pela primeira vez no Brasil na canção PERAMBULANDO da novela Primeiro Amor em 1972. Esta palavra tem inclusive uma origem curiosa. Vem da placa corroída da Rua Manoel da Nóbrega até sobrar Rua Brega, e esta rua era uma rua de prostituição. A moçada dizia vamos na rua Brega, na rua do Brega e finalmente no Brega. Hoje essa palavra é de todo Brasil. O iorubá também entra com vigor nas letra da dupla.

Tanto Antonio Carlos como Jocafi se projetaram explorando o veio afro. De festa do Terreiro de Alaketo, a Ingorossi, Enterro da Ialorixá, Presente de Iemanjá, as canções mais fortes de Antonio Carlos tinham a marca do vocabulário nagô e a influência dos seus ritmos. A língua ibérica se mesclava com as palavras iorubás e adquiria uma sensualidade doçura que evocava Dorival Caymmi. No Festival da Excelsior, mencionado atrás, Caymmi e Jorge Amado estavam no juri. Ambos votaram nas canções de Jocafi e Antonio Carlos para os primeiros lugares. A relação de Jorge Amado com os dois meninos não ficaria aí. Jorge os elegeu como seus compositores prediletos e os escolheu para fazer a trilha Sonora do filme Pastores da Noite de Marcel Camus inspirado no livro do mesmo nome. Mais tarde, outras personagens amadianas mereceram músicas da dupla que chega a fazer um CD só de canções inspiradas nos livros de Jorge Amado. E esta afinidade repousa, principalmente, nas letras. A dupla soube expressar nas letras o sentimento popular dos romances. Os vívidos personagens de Jorge Amado eram descritos nas letras da dupla com síntese e precisão, com vivacidade e encanto. As afinidades do romancista com a cultura afro encontrava eco no mesmo traço dos compositores, unidos todos na construção de uma Bahia de sonhos.

Jocafi ganhara o Festival do Samba com uma música marcadamente afro, podemos chamá-la, redundantemente, de afro-samba, D’Angola ê Caramá, trazendo até no nome a influência africana. Depois Catendê, traço de união da dupla, mesclando um refrão em Kimbundo com português. Ora, enquanto as diversas escolas de compositores se afastavam das raízes populares, chegando com Egberto Gismonti até um semi-erudito, tanto Antonio Carlos como Jocafi, atolados até o pescoço na cultura popular da Bahia, ficaram aos pés nesta cultura e projetaram até as cumeadas da música popular brasileira uma linguagem que cada vez mais se afastava da literatice para consolidar um estilo de nítido sabor popular. Poeta, já com um livro publicado, nas parcerias que fiz com ambos, eu sempre puxei pra fazer letras literárias mas, eles, felizmente, me puxaram para o gosto do povo. A bossa nova, com Vinícius como corifeu da poesia, instaurou o refinamento e o estilo literário na letra de música que, de repente, passa a despir a camisa listrada e a usar um paletó e gravata. São tão bem trabalhadas as letras de Vinícius que podem ser degustadas sem a música como poesia apenas. Ora, nem todo mundo era Vinícius na música popular brasileira. Quando Antonio Carlos e Jocafi pisam no tapete da canção, grassava uma enxurrada de sub-literatura que os tropicalistas souberam flagrar e criticar em várias de suas canções se bem que nem uma direção também eruditizante, com trocadilhos, jogos de palavras, alusões eruditas etc. Antonio Carlos e Jocafi debruçaram-se sobre a língua certa do povo, como disse o poeta. E deveram muito do seu sucesso a linguagem direta, coloquial mas nova de suas letras.

A dupla chegou a ter uma marca registrada. Uma letra deles era imediatamente reconhecida . Outras duplas e outros compositores passaram até a imitar esta linguagem, como Tom e Dito e Benito de Paula, se bem que num plano inferior. A reapropriação que a dupla fazia do vocabulário, sintaxe e poesia popular fê-los adquirir um esquisito sabor de novidade no eixo centro-sul, chegando até a difundir palavras, a fazer novidade os cariocas e paulistas falar como baianos, usar os termos populares da Bahia. Associa-se a este mergulho nas raízes do povo uma utilização insólita. Por vezes, de palavras que, inseridas no contexto popular se diluíam, se popularizavam às vezes com um tom de leve pernosticismo que ao invés de soar mal, lembrava a forma até engraçada de como as palavras “difíceis” caem na boca do povo.

Assim, palavras como peripécias, intelectos, imbecil, comício, misturam-se com amor, coração, nêgo, etc. Como que rebatizando palavras livrescas com a generosa água da voz popular. Sem dúvidas naquele momento, surgiu uma linguagem nova no samba brasileiro, dando um hausto a um gênero que sucumbia ante uma maré de lixo comercialesco. A grande virtude das letras, da mensagem da dupla não foi todavia, não ser comercial mas o ser de uma forma sadia, vender um produto de boa qualidade. Alguns dos sambas antológicos da música brasileira foram produzidos pela dupla nesta fase, basta citar o sempre executado Você Abusou, mas na esteira deste samba temos Mais que Doidice, Desacato, Teimosa, Nêgo me chamou de imbecil, Torô de Lágrimas, Terceiro Ato, Desmazelo, etc. Na época a crítica chegou a chamá-los de salvadores do samba. E isto se deve, não só ao suingue diabólico que a dupla implantou, com um estilo definido de cozinha no samba, explorando muita a percussão, com o surdo á frente, mas principalmente as suas letras, a comunicabilidade de que suas letras calcadas em imagens e ressonâncias coloquiais, todas elas de grande impacto e um estilo de cantar com um mini-breque a la Mário Reis.

Acima de tudo, pois, prevalece a voz da Bahia, na poesia popular de Antonio Carlos e Jocafi herdeiros de Caymmi.

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